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O que exatamente faz um pesquisador? Quem não está diretamente ligado ao meio acadêmico talvez já tenha se feito essa pergunta. Durante a pandemia de Covid-19, especialmente nos anos de 2020 e 2021, o trabalho de pesquisadores da área da saúde ganhou grande visibilidade. Enquanto médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem atuavam no atendimento às pessoas infectadas, cientistas de diferentes laboratórios investigavam formas de desenvolver vacinas e avaliar sua eficácia.
Essas imagens ajudaram a mostrar uma parte do trabalho científico. Mas será que podemos pensar na pesquisa para além da área da saúde? No senso comum, e talvez também sob a influência de séries como The Big Bang Theory, algumas pessoas podem associar pesquisadores ao estudo do espaço, à construção de foguetes ou a questões de Física, Química e Matemática. São exemplos possíveis, mas a pesquisa também acontece em muitas outras áreas. Que perguntas orientam esses estudos? Como eles se relacionam com a sociedade?
Para refletir sobre essas questões, podemos olhar para a Educação e, de modo mais específico, para a Educação Matemática, campo de atuação das autoras deste artigo. O que faz um pesquisador nessa área? Não há uma única resposta, porque a Educação Matemática reúne diferentes problemas, perspectivas e campos de conhecimento.
A pesquisadora Maria Aparecida Viggiani Bicudo, uma das participantes da fundação do primeiro programa de pós-graduação em Educação Matemática da América Latina, na Unesp de Rio Claro, destaca a relação entre Educação e Matemática como parte central desse campo. Por isso, a Educação Matemática dialoga com áreas como Didática, Epistemologia, Antropologia, Sociologia, Linguística, Psicologia e Ciência da Computação.
Pesquisadores da área investigam, direta ou indiretamente, questões ligadas aos processos de ensino e aprendizagem da Matemática. Isso pode envolver perguntas sobre como os estudantes aprendem determinado conceito, como professores planejam suas aulas, quais recursos apoiam a aprendizagem ou como mudanças curriculares influenciam o cotidiano escolar.
Também é possível estudar a formação de professores, os materiais didáticos, as tecnologias digitais e as relações entre conhecimento matemático e sociedade. Cada pesquisa parte de um recorte específico. Em conjunto, esses estudos ajudam a compreender diferentes aspectos da educação e a formular novas perguntas para a área.
Depois de pensar no que faz um pesquisador em Educação Matemática, surge outra pergunta: que impacto esse trabalho traz para a sociedade, e em quanto tempo esse impacto pode ser percebido?
É importante fazer essa pergunta com cuidado. A expectativa por resultados imediatos pode levar a desconsiderar processos que são fundamentais para a Educação, como o respeito aos diferentes modos de aprender, às diferenças entre as pessoas e aos caminhos percorridos por cada comunidade escolar.
O pesquisador Ubiratan D’Ambrosio defendia a ideia de educar para a paz. Essa proposta pode parecer utópica à primeira vista, mas também pode ser entendida como um processo e uma intencionalidade que orientam a prática. Educar para a paz envolve escolhas feitas ao longo do tempo, por pesquisadores, professores e por todas as pessoas que participam da educação.
Nem todo impacto de uma pesquisa aparece rapidamente ou pode ser resumido em um resultado único. Em Educação, mudanças podem se desenvolver por meio da formação de professores, da reflexão sobre práticas pedagógicas, da produção de materiais e do diálogo entre universidades e escolas. Esses processos podem contribuir para novas experiências de ensino e aprendizagem, ainda que seus efeitos dependam do contexto e da continuidade das ações.
Como pesquisadoras em Educação Matemática, nosso trabalho envolve a formação de professores de Matemática e os processos de ensino e aprendizagem com tecnologias digitais. Para desenvolver uma pesquisa, precisamos compreender o dinamismo das escolas e acompanhar as mudanças curriculares que afetam o trabalho de professores e estudantes.
Também é necessário dialogar com outros pesquisadores, estudar referências teóricas que estejam em sintonia com nossas perspectivas sobre conhecimento e educação e acompanhar as transformações das tecnologias e dos materiais didáticos. O pesquisador Marcelo Borba, também ligado à fundação do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Unesp de Rio Claro, ressalta que o conhecimento é contingente e pode mudar ao longo da História.
Esse trabalho envolve muitas atividades. Pesquisadores produzem e publicam artigos, participam de eventos, apresentam trabalhos e compartilham resultados em anais. Também podem ministrar ações de formação continuada, lecionar na graduação e na pós-graduação, construir parcerias e participar de órgãos colegiados da universidade. Essas tarefas se relacionam com diferentes etapas da pesquisa e com a circulação do conhecimento produzido.
O cotidiano acadêmico não se resume a estudar um tema de forma isolada. Pesquisar também exige estabelecer relações entre as perguntas investigadas, as referências teóricas, os contextos observados e as experiências de outras pessoas. Em Educação Matemática, o diálogo com a escola e com os professores é especialmente importante para compreender como as questões de pesquisa aparecem na prática.
Atualmente, as autoras estão envolvidas no projeto temático Ensino e aprendizagem com calculadoras: possibilidades para o professor de Matemática, coordenado pela professora doutora Sueli Liberatti Javaroni. O projeto é fruto de uma parceria entre o Grupo de Pesquisa em Informática, outras Mídias e Educação Matemática, o GPIMEM, e a CASIO LTDA.
Projetos dessa natureza também são chamados de projetos guarda-chuva porque reúnem diferentes pesquisas em torno de um tema comum. Cada pesquisa tem seu próprio recorte e suas perguntas específicas, mas todas se relacionam ao foco principal do projeto. Neste caso, o tema é o uso de calculadoras no ensino e na aprendizagem da Matemática.
A partir desse trabalho, temos realizado ações voltadas à formação inicial e continuada de professores, com foco no ensino de Matemática com calculadoras científicas e gráficas da CASIO. As atividades mencionadas neste artigo abrangem as Diretorias Regionais de Ensino de Bauru, Jaú, Rio Claro, São Carlos, São José do Rio Preto e Tupã.
Ao longo dos quase três anos de vigência do projeto, estabelecemos parcerias em atividades de sala de aula, tanto na graduação quanto na Educação Básica. Nessas experiências, as calculadoras são relacionadas a abordagens investigativas, que podem incentivar os participantes a formular perguntas, explorar possibilidades e refletir sobre os resultados encontrados.
O trabalho também busca criar oportunidades para que futuros professores e estudantes pensem sobre o papel do conhecimento nas comunidades em que estão inseridos. A Matemática, a tecnologia e as demais áreas abordadas nas atividades são meios para apoiar essa reflexão. O planejamento considera os conteúdos estudados, os recursos disponíveis e os objetivos de aprendizagem definidos para cada contexto.




As ações realizadas são específicas e acontecem em contextos determinados. Quando compartilhadas e divulgadas, porém, elas podem inspirar outras pessoas, provocar novas perguntas e contribuir para o surgimento de parcerias. A circulação das experiências é uma das maneiras de ampliar o diálogo entre pesquisadores, professores, estudantes e comunidades escolares.
Na pesquisa em Educação Matemática, o processo tem grande importância. É nele que se constroem relações, se revêm ideias e se desenvolvem práticas. Os resultados podem aparecer como desdobramentos de um trabalho contínuo, feito com seriedade, colaboração e atenção às pessoas envolvidas.
Pesquisar também é construir caminhos junto com a escola
Na Educação Matemática, o impacto pode surgir ao longo do processo: nas perguntas que orientam uma investigação, nas parcerias que se formam e nas práticas que passam a ser discutidas e experimentadas.
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Ana Cláudia Cossini Martins
Professora Especialista em Currículo (Física)
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo
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Maria Regina Duarte Lima
Professora Especialista em Currículo (Matemática)
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo
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Paula Roberta Pereira da Silva
Professora Componente Física
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo