Uso da calculadora em outros países: regras e práticas

Profa. Dra. Juliana Çar. Stal
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18 de dezembro de 2023
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Tempo de leitura: 23 minutos

O uso da calculadora em outros países não segue um único modelo: regras de sala de aula, orientações curriculares e permissões em provas variam conforme a etapa de ensino e o tipo de avaliação. Observar essas diferenças ajuda a compreender como cada sistema incorpora a tecnologia ao ensino de Matemática, sem transformar uma política local em regra universal.

A questão principal não é apenas saber se a calculadora está presente na escola. Também é preciso perguntar em que situações ela é utilizada, quais aprendizagens se espera desenvolver e como professores e estudantes compreendem seu papel. Uma ferramenta pode ser aceita em determinada atividade e restrita em uma prova, por exemplo. As regras podem mudar entre etapas escolares, disciplinas e tipos de avaliação.

Por que olhar para outros contextos?

A comparação internacional ajuda a perceber que o debate sobre calculadoras faz parte de questões mais amplas: o que se espera que os alunos aprendam, como os currículos integram tecnologias e quais conhecimentos são avaliados. Quando observamos outro contexto, podemos formular perguntas sobre nossas próprias práticas e reconhecer que uma decisão pedagógica depende de objetivos e condições concretas.

Essa comparação exige cuidado. Países não têm necessariamente uma única regra para todas as escolas e provas. Mesmo quando há diretrizes nacionais, redes locais, instituições e exames podem adotar orientações específicas. Por isso, expressões como “em determinado país sempre se usa calculadora” podem ocultar diferenças importantes.

O texto original deste artigo apresentava exemplos relacionados aos Estados Unidos, a Portugal e à Espanha. Como as regras curriculares e de avaliação podem ser atualizadas, afirmações específicas sobre obrigatoriedade ou permissão devem ser conferidas nas fontes oficiais vigentes antes de serem publicadas como informação atual. A discussão pedagógica continua útil, mas cada exemplo nacional precisa indicar a etapa, o tipo de avaliação e a data da regra consultada.

Calculadora, currículo e avaliação

O currículo define conhecimentos e habilidades que os estudantes devem desenvolver. A calculadora pode apoiar parte desse percurso, por exemplo, permitindo testar valores, verificar cálculos, analisar dados ou comparar representações. O recurso não determina sozinho como a aula será conduzida. A aprendizagem depende das tarefas propostas e das perguntas que orientam a exploração.

As avaliações também têm objetivos diferentes. Uma prova pode querer verificar cálculo mental, domínio de algoritmos, compreensão conceitual ou aplicação em um problema. A permissão de calculadoras deve ser entendida dentro desse propósito. Uma restrição em uma avaliação específica não significa necessariamente que a ferramenta não tenha lugar no ensino; da mesma forma, a autorização não torna seu uso adequado em qualquer situação.

Ao comparar políticas educacionais, vale separar pelo menos quatro aspectos: uso em sala de aula, uso em atividades de casa, uso em avaliações escolares e uso em exames nacionais ou de acesso à educação superior. Essa distinção impede conclusões apressadas e ajuda professores e famílias a entenderem o alcance de cada regra.

O que a calculadora pode favorecer?

Quando o objetivo é explorar padrões ou compreender relações, a calculadora pode reduzir o tempo gasto em operações repetitivas. A turma pode observar como uma sequência varia, analisar dados de um experimento ou verificar o efeito de alterar um parâmetro. Com isso, ganha espaço para explicar por que um resultado ocorre e relacionar o procedimento ao conceito estudado.

Em uma investigação sobre funções, por exemplo, os alunos podem escolher alguns valores de entrada, calcular as saídas e organizar os pares em uma tabela. A partir da tabela, podem discutir crescimento, regularidade e possíveis relações entre variáveis. Se houver recurso para visualizar gráficos, a turma poderá relacionar diferentes representações. O professor pode pedir previsões antes de utilizar a ferramenta e solicitar que os estudantes comparem as previsões com os resultados.

Na estatística, a calculadora pode apoiar a organização e a análise de conjuntos de dados. O ponto central não é somente obter média ou desvio, mas interpretar o que as medidas revelam e quais limites possuem. Os estudantes precisam avaliar de onde vieram os dados, se representam a situação analisada e se a conclusão é sustentada pelas informações disponíveis.

Perguntas para analisar a prática da escola

Professores e coordenadores podem usar a comparação internacional como ponto de partida para conversas locais. Algumas perguntas ajudam a tornar o debate concreto:

  • Em quais conteúdos a calculadora amplia a exploração matemática?
  • Quais procedimentos os estudantes precisam compreender sem depender do aparelho?
  • Como a turma aprende a conferir se um resultado é plausível?
  • Quais regras se aplicam às provas e como são comunicadas aos alunos?
  • Os estudantes têm acesso semelhante às ferramentas necessárias?
  • Como as atividades avaliam o raciocínio, a interpretação e a justificativa?

Essas perguntas evitam tratar a discussão como uma escolha simples entre permitir ou proibir. A escola pode definir orientações coerentes com o currículo, explicar as regras de cada avaliação e planejar atividades em que a tecnologia seja usada com intencionalidade.

Como tratar as fontes internacionais

Antes de citar uma regra de outro país, procure a fonte oficial responsável pelo currículo ou pela avaliação. Confira a data do documento, o nível escolar a que se aplica e se existem exceções. Uma notícia ou um relato institucional pode ajudar a localizar o assunto, mas não substitui a norma original quando a afirmação envolve obrigatoriedade ou permissão em exames.

Também é importante diferenciar uma prática observada em algumas escolas de uma política nacional. Um estudo de caso pode mostrar como docentes usam calculadoras em determinado contexto, mas não permite concluir que o país inteiro adote o mesmo método. Ao apresentar uma comparação, indique o recorte e evite generalizações.

O que podemos aprender com a comparação?

A experiência de outros sistemas não oferece uma fórmula pronta para a realidade brasileira. Ela ajuda a observar possibilidades, limites e escolhas que podem ser debatidas com base em objetivos pedagógicos. A BNCC inclui tecnologias como recursos que podem apoiar a aprendizagem matemática, mas cabe à escola e ao professor planejar como incorporá-las de modo coerente ao conteúdo e às condições da turma.

Uma discussão produtiva considera simultaneamente aprendizagem, acesso, formação docente e avaliação. Quando esses elementos são tratados juntos, a calculadora pode ser analisada como parte de uma proposta de ensino, e não apenas como um objeto que aparece ou desaparece da sala.

A comparação internacional deve continuar aberta à revisão. Currículos e regras mudam, e as afirmações específicas precisam ser verificadas no momento da publicação. O debate pedagógico, porém, permanece: como usar recursos tecnológicos para apoiar a compreensão, a resolução de problemas e a participação dos estudantes?

Sobre a autora

Juliana Çar Stal é professora de Matemática da Educação Básica e doutoranda em Educação Matemática pela UNESP.

Referências mencionadas no texto original

SMOLE, Katia; CHICA, Cristiane; ISHIHARA, Cristiane. Usar ou não usar a calculadora em sala de aula. Mathema, 2019.

CASIO Educação. Professores de toda Espanha debatem em Barcelona sobre o uso das calculadoras em sala de aula.

CASIO Educação. Conheça a calculadora científica e saiba os benefícios de utilizá-la em sala de aula.

Sumário

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"Porque a BNCC não te diz como fazer. A BNCC diz que é importante que se use [calculadoras]. É importante que se leve para sala de aula as tecnologias, a calculadora ou uma planilha. Mas o como fazer, isso ela [a BNCC] não faz. O como fazer é o que a gente faz na Casio. "

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Ana Cláudia Cossini Martins

Professora Especialista em Currículo (Física)
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo

"Ele [o estudante] precisa ter todo um conhecimento matemático para que ele possa inserir os comandos na calculadora. A medida que a gente vai trabalhando com esses comandos matemáticos, ele vai desenvolvendo o seu raciocínio lógico-matemático ."

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Maria Regina Duarte Lima

Professora Especialista em Currículo (Matemática)
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo

"Eu fico ansiosa esperando cada formação, porque eu saio renovada e aprendendo mais a cada formação. Porque nós educadores somos eternos estudantes."

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Paula Roberta Pereira da Silva

Professora Componente Física
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo