BNCC e uso da calculadora: como apoiar a aprendizagem

Profa. Dra. Juliana Çar. Stal
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18 de dezembro de 2023
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Tempo de leitura: 26 minutos

De professora para professores e professoras.

Quando pensamos na relação entre a BNCC e uso da calculadora em sala de aula, é comum imaginar que ela serve apenas para conferir o resultado de uma operação feita no papel. Essa percepção costuma gerar dúvidas entre professores, professoras e equipes pedagógicas: a calculadora pode contribuir para a aprendizagem da Matemática e para o desenvolvimento do raciocínio dos estudantes?

As opiniões sobre o tema variam. Para algumas pessoas, a calculadora facilita a exploração de conceitos; para outras, seu uso pode reduzir a prática do cálculo. Para discutir essa questão com mais segurança, vale olhar para as orientações curriculares e, principalmente, para a maneira como o recurso é integrado às atividades.

A Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, oferece um ponto de partida para essa conversa. O documento orienta o trabalho com competências e habilidades matemáticas ao longo da Educação Básica e considera o uso de diferentes recursos didáticos em situações que favoreçam a reflexão e a compreensão.

Como a BNCC apresenta o uso de calculadoras?

Na área de Matemática, a BNCC reconhece que recursos como jogos, livros, vídeos, calculadoras, planilhas eletrônicas e softwares de geometria dinâmica podem contribuir para a compreensão de noções matemáticas. O documento também ressalta que esses recursos precisam estar associados a situações que estimulem a reflexão e a sistematização dos conhecimentos.

A Base também aborda diferentes procedimentos de cálculo. Os estudantes devem desenvolver habilidades para calcular mentalmente, fazer estimativas, usar a calculadora e decidir quando cada procedimento é adequado. Portanto, o trabalho com o recurso pode fazer parte da aprendizagem matemática, desde que esteja ligado a objetivos claros e a uma proposta pedagógica.

Isso não significa que a calculadora deva estar presente em toda atividade ou que substitua o ensino de estratégias de cálculo. Significa que seu uso pode ser planejado de acordo com o que a turma precisa investigar, compreender ou resolver. A pergunta pedagógica passa a ser: o que os estudantes podem aprender com essa ferramenta nesta atividade?

Usar a calculadora é mais do que conferir resultados

Quando a calculadora aparece somente no fim de uma conta para confirmar se o resultado está correto, os estudantes podem deixar de explorar outras possibilidades oferecidas pelo recurso. Ela também pode ajudar a testar hipóteses, comparar estratégias, observar regularidades e investigar como a alteração de um número modifica o resultado.

Imagine uma atividade em que a turma investiga o que acontece quando um número é multiplicado por 0,1; 0,01 ou 0,001. A calculadora permite testar rapidamente diferentes valores. Com os resultados em mãos, os estudantes podem procurar padrões, formular explicações e verificar se suas hipóteses se confirmam.

Em outra proposta, a turma pode comparar duas estratégias para resolver um problema e analisar por que elas produzem o mesmo resultado ou resultados diferentes. O tempo poupado em cálculos repetitivos pode ser usado para interpretar as respostas, discutir procedimentos e avaliar se o resultado é razoável para a situação apresentada.

Esses exemplos ajudam a deslocar a atenção do resultado isolado para o raciocínio envolvido. A calculadora não escolhe o problema, não define qual estratégia faz sentido e não interpreta o resultado no contexto. Essas decisões continuam sendo parte do trabalho dos estudantes.

O que significa pensar com a calculadora?

Na Educação Matemática, a ideia de pensar com tecnologias digitais está relacionada à participação da tecnologia na produção do conhecimento. A ferramenta não aparece apenas como um acessório usado depois que o raciocínio já terminou. Ela participa da atividade: permite experimentar, visualizar, comparar e construir relações matemáticas.

A expressão pensar com a calculadora pode ajudar a explicar essa perspectiva. O estudante elabora uma estratégia, decide quais operações realizar, interpreta os resultados e verifica se eles respondem ao problema. A calculadora participa desse percurso, mas o sentido matemático depende das perguntas e das decisões feitas durante a atividade.

Maurício Rosa discute, em seus estudos sobre tecnologias digitais na Educação Matemática, ideias como pensar com e saber com a tecnologia. Essa perspectiva ajuda a planejar atividades em que os estudantes interagem com o recurso para produzir conhecimento, em vez de apenas receber uma resposta pronta.

Por isso, a maneira de propor a atividade faz diferença. Se o objetivo for investigar regularidades, comparar resultados ou resolver um problema contextualizado, a calculadora pode ter uma função central. Se o objetivo for praticar um procedimento de cálculo específico, o professor pode decidir quando o recurso será usado e quais etapas os estudantes deverão explicar.

Como planejar atividades com calculadora?

O primeiro passo é definir o objetivo de aprendizagem. A turma vai comparar estratégias? Investigar uma propriedade numérica? Resolver um problema com dados? Analisar o comportamento de uma expressão? Ter esse objetivo em mente ajuda o professor a escolher uma atividade em que o uso da calculadora tenha propósito.

Também é importante elaborar perguntas que convidem os estudantes a explicar o que fizeram. Em vez de perguntar apenas qual foi o resultado, o professor pode explorar questões como:

  • Que estratégia você escolheu para resolver o problema?
  • Como a calculadora ajudou nesta etapa?
  • O resultado parece razoável para a situação?
  • O que acontece se alterarmos um dos valores?
  • Há outro procedimento que também poderia ser usado?

Essas perguntas ajudam a tornar visível o raciocínio dos estudantes e abrem espaço para que comparem caminhos diferentes. Também permitem ao professor identificar dúvidas, propor novos exemplos e retomar conceitos que ainda não estejam claros.

Outro cuidado importante é combinar expectativas. Dependendo da atividade, pode ser necessário registrar as etapas feitas sem a calculadora, justificar a escolha do recurso ou interpretar o resultado por escrito. Assim, a turma compreende que usar a ferramenta faz parte de um trabalho matemático mais amplo.

A calculadora pode contribuir para o raciocínio matemático?

A calculadora pode contribuir quando é integrada a uma atividade que exige dos estudantes mais do que apertar teclas. Interpretar o problema, escolher operações, antecipar resultados, analisar padrões e avaliar respostas são ações que podem fazer parte de propostas com esse recurso.

Isso não acontece automaticamente. A presença da tecnologia, por si só, não garante aprendizagem. O planejamento precisa conectar o recurso ao conteúdo, ao objetivo da aula e às perguntas que orientarão a investigação. Também cabe ao professor acompanhar o processo e criar oportunidades para que os estudantes expliquem o que compreenderam.

Quando esse planejamento existe, a calculadora pode participar de uma aprendizagem em que o estudante formula estratégias e interpreta resultados. O foco deixa de estar apenas na resposta final e passa a incluir o caminho percorrido para resolver o problema.

Tecnologia e resolução de problemas

A resolução de problemas oferece um contexto produtivo para integrar a calculadora ao ensino de Matemática. Diante de uma situação, os estudantes podem compreender o enunciado, selecionar informações, elaborar uma estratégia, usar a ferramenta quando ela for pertinente e interpretar a resposta encontrada.

Nessa abordagem, a calculadora não encerra o raciocínio. Ela pode ajudar a ampliar as possibilidades de exploração e liberar tempo para que a turma se concentre em decisões matemáticas importantes. O professor, por sua vez, pode observar como os estudantes usam o recurso e orientar a construção de estratégias cada vez mais consistentes.

Para refletir: em quais atividades da sua turma a calculadora poderia ajudar os estudantes a investigar, comparar estratégias ou identificar padrões matemáticos?

Por Juliana Çar Stal

Professora de Matemática da Educação Básica e doutoranda em Educação Matemática pela Universidade Estadual Paulista, UNESP.

Referências

  • BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação. Brasília, 2017. Disponível em: documento oficial da BNCC.
  • ROSA, M. Cyberformação com professores de matemática: interconexões com experiências estéticas na cultura digital. In: ROSA, M.; BAIRRAL, M. A.; AMARAL, R. B. (org.). Educação Matemática, Tecnologias Digitais e Educação a Distância: pesquisas contemporâneas. São Paulo: Livraria da Física, 2015, p. 57–96.
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"Porque a BNCC não te diz como fazer. A BNCC diz que é importante que se use [calculadoras]. É importante que se leve para sala de aula as tecnologias, a calculadora ou uma planilha. Mas o como fazer, isso ela [a BNCC] não faz. O como fazer é o que a gente faz na Casio. "

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Ana Cláudia Cossini Martins

Professora Especialista em Currículo (Física)
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo

"Ele [o estudante] precisa ter todo um conhecimento matemático para que ele possa inserir os comandos na calculadora. A medida que a gente vai trabalhando com esses comandos matemáticos, ele vai desenvolvendo o seu raciocínio lógico-matemático ."

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Maria Regina Duarte Lima

Professora Especialista em Currículo (Matemática)
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo

"Eu fico ansiosa esperando cada formação, porque eu saio renovada e aprendendo mais a cada formação. Porque nós educadores somos eternos estudantes."

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Paula Roberta Pereira da Silva

Professora Componente Física
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo